Quarentinha faz avaliação da atual situação do Papão e relembra os bons e maus momentos



Maior ídolo vivo da história do clube, o ex-jogador Quarentinha, de 84 anos, festejados no domingo passado, já viu de quase tudo no Paysandu. Grandes conquistas e, também, momento ruins vividos pelo Papão fazem parte do rosário de histórias acumuladas por Paulo Benedito dos Santos Braga, recordista de títulos no futebol brasileiro, como atleta. Se nas glórias sobraram, nas adversidades, ele jamais se quedou, entendendo tais situações como “coisas do futebol”.

Com 12 títulos estaduais e uma série de outras conquistas, Quarenta, como era mais conhecido em sua época de jogador, conviveu até ontem com a possibilidade de o Paysandu cair para a Série C, sem, no entanto, se abalar em nenhum momento. Nesta entrevista, concedida pelo ídolo da Fiel, na quinta-feira (22), ele fala, entre outras temas, de suas glórias e dificuldades durante os 18 anos em que vestiu a camisa do Papão.

P: Quais os seus melhores momentos no Paysandu em tantos anos de clube, como jogador?

R: Um desses grandes momentos, sem dúvida, foi a minha saída do aspirante para o quadro principal do clube. Na época, o Paysandu não conquistava um título há 11 anos. Um longo tempo, sem dúvida. Poderia considerar esse momento como o mais importante. Contudo, existem outras partes de minha história no Paysandu que também ficaram marcados. A conquista de 1971, por exemplo, ficou marcada pela maneira como aconteceu. Decidimos o título do Estadual contra o nosso maior rival, o Remo. A gente perdia o clássico por 2 a 0 e conseguiu virar para 3 a 2. Na época, o time enfrentava algumas dificuldades, com os atletas tendo seus salários atrasados. Alguns jogadores não recebiam há cinco, outros há seis, sete meses. Isso não interferiu em nada.

P: E o que mais o deixou triste ao longo de sua carreira?

R: Não foram nem tanto as derrotas, que, todos sabem, são coisas do futebol, mas sim as contusões que sofri, como uma fratura na clavícula na véspera da decisão do Estadual, lesões no joelho e uma fratura do perônio (fíbula), quando eu servia a Seleção Paraense, em 1969, participando de um amistoso pelo Paysandu contra o Ceará-CE. No final de minha carreira, em 1972, fiz poucas partidas pelo Paysandu por ter sofrido uma contusão no joelho. Passei mais de cinco meses afastado dos campos. Quando consegui me recuperar, achei que estava na hora de parar, pendurar as chuteiras, como se diz. Não havia mais aquela motivação. Lembrei-me do ensinamento do professor (técnico) Gentil Cardoso, o melhor que eu vi na minha carreira, e que costumava dizer “meu filho no futebol você faz 100 partidas, mas se perder uma tudo o que você fez é esquecido”. Tomei isso como exemplo e na volta de uma temporada na Bahia decidi parar por cima.

P: O futuro presidente do Paysandu, Ricardo Gluck Paul, já anunciou que pretende ouvir em sua gestão sugestões de torcedores, imprensa e, principalmente dos ídolos do clube, o que o senhor acha dessa ideia?

R: Acho que uma importância muito grande ouvir pessoas que têm uma história dentro do clube, seja no Paysandu, no Remo, na Tuna e em todos os demais clubes de futebol. Tem muita gente hoje no futebol que é nova e acha que conhece tudo e, na verdade, muitas das vezes não sabe de nada. Então, não custa nada a essas pessoas consultar e colher ensinamentos de quem tem experiência por ter passado tantos anos jogando futebol.

P: A maneira de agir dos torcedores de hoje é diferente de sua época de jogador?

R: A torcida sempre cobrou e vai continuar cobrando. É normal. O torcedor sempre quer a vitória. Quem não quer? O que acontece hoje e que não ocorria na minha época é a maneira violenta como alguns desses torcedores cobram a derrota do time. São aqueles que não têm certo equilíbrio.

P: Como o senhor analisa o atual momento do Paysandu, independentemente de ter ido ou não para a Série C de 2019?

R: Acompanhei pela televisão quase todos os jogos das Séries A, B e C e observei muitos jogadores de qualidade. Mas, infelizmente, a direção de nossos clubes não se dá ao trabalho de acompanhar os jogos para contratar atletas que, dentro das condições financeiras de cada agremiação, podem ser contratados. Lamentavelmente, nosso clubes, de certo tempo pra cá, preferem ir na conversa de empresários, que em muitos casos, não são confiáveis, empurrando jogadores que chegam aqui e não têm condições. Antigamente não era assim. Nossos dirigentes se davam ao trabalho de ir aos clubes para ver de perto os jogadores que queriam.

P: Então, o problema é falta de critério nas contratações, é isso?

R: Em parte é isso. Claro que existem outras coisas que precisam sim ser melhoradas. O Paysandu hoje, por exemplo, tem sua parte administrativa bem organizada. Mas ainda falta acertar em outras questões. Esse ano, por exemplo, o Paysandu trouxe um monte de treinadores (quatro no total) e todos eles cometendo os mesmos erros, indicando muitos jogadores que chegaram aqui e não resolveram nada. A consequência não poderia ser outra dentro de campo. É preciso sim critério nas contratações. É necessário se acabar com essa situação de o clube contratar jogadores indicados por empresários, que têm o interesse, claro, de vender sua mercadoria.

P: O que o senhor recomendaria à próxima diretoria do Paysandu para que a temporada 2019?

R: Seja qual for a Série que disputar em 2019, o Paysandu vai precisar, sem dúvida, evitar cometer os mesmos erros que cometeu este ano. Se o Paysandu cair para a Série C não será o fim do mundo. O Paysandu já galgou uma altura muito grande. Descer um degrau não vai diminuir em nada o clube. Se tiver conseguido se manter na Série B, ótimo, mas isso não significa que está tudo certo. É preciso aprender com os erros cometidos. Tirar lições que possam ajudar o time a alcançar postos mais altos ainda no futebol brasileiro.

P: No que o esporte contribuiu para que o senhor chegasse aos 84 anos com todo esse vigor físico e lucidez?

R: Na minha época, quando o futebol não era financeiramente o que é hoje, havia um cuidado muito grande por parte dos atletas com o seu extracampo. A maioria estudava, trabalhava, enfim, tinha outra atividade fora do futebol. Não havia tempo para extravagância. Ainda existiam as concentrações de véspera de jogos, como ainda existem hoje. Então, a dedicação à família, ao trabalho e ao futebol era muito grande. É claro que o futebol contou muito para que eu e outros ex-jogadores da minha época chegassem onde chegamos bem de saúde.

P: O Paysandu começou a temporada sonhando com a Série A e terminou lutando contra o rebaixamento. O senhor acha que ainda falta estrutura para o clube disputar a elite?

R: Claro que ainda faltam muitas coisas. É claro que falta sim uma estrutura melhor. O clube precisa, por exemplo, de um Centro de Treinamento. Mas são coisas que vão se fazendo com o tempo. Agora que o clube está bem organizado administrativamente, dá para se pensar melhor nessas melhorias. O próprio CT já vem sendo construído.

P: Nos últimos anos, o torcedor e a imprensa têm sido impedido de acompanhar os treinos do time, o que o senhor acha disso?

R: Sou contra isso. O torcedor quer estar participando do dia a dia do clube. Ele quer ver os atletas treinando, quer se informar de tudo. Acho isso uma grande tolice. Não existe esse negócio de esconder jogo do adversário. É uma grande besteira. A Seleção Brasileira escondeu tanto seus treinos e deu no que deu. O jogador quando sabe, quando é craque mesmo, não tem essa de esconder nada.

(Nildo do Lima/Diário do Pará)
25/11/2018
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